Revista Cães & Cia, n. 311, abril de 2005

O gato doméstico é considerado por muitos um ser anti-social, capaz de se apegar somente ao território. Mas a grande maioria das pessoas que tem gato não concorda com essa idéia e defende a sociabilidade dos felinos com unhas e dentes. Quem está certo? Rossi fala da sociabilidade felina e de como influenciá-la

Como filhote de felino selvagem
Da mesma maneira que pode ser útil estudar o lobo para entendermos o cão, o felino selvagem pode nos ajudar a compreender melhor o gato doméstico. Diferentemente da maioria dos animais domésticos, o gato sofreu poucas alterações morfológicas e, provavelmente, poucas alterações comportamentais durante a sua domesticação. Estudos genéticos comprovam que o gato doméstico manteve grande parte das características selvagens de seus ancestrais. Acredita-se que o gato doméstico adulto seja mais sociável que o felino selvagem adulto por manter comportamentos de filhote de felino selvagem, como ronronar e movimentar as patas como se estivesse mamando.

Sociabilidade sem contato humano
Se o gato doméstico fosse um animal estritamente anti-social, seria de se esperar que, sem a influência humana, fosse completamente solitário. Mas não é o que se observa. Grande parte dos gatos, principalmente as fêmeas, reúne-se em grupos. Nessa situação, os cuidados na criação dos filhotes são compartilhados e, com isso, aumenta a chance de eles sobreviverem, conforme comprovam estudos científicos. Outro vínculo é o estabelecido por alguns gatos que formam duplas. Eles caçam em áreas próximas, brincam e dormem juntos. Esse vínculo, que acontece sem interferência humana, pode ocorrer entre machos, fêmeas e entre um macho e uma fêmea. Quando uma dupla é separada, alguns gatos param de se alimentar ou procuram o parceiro por vários dias
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A relação entre gato e ser humano
O gato se mostra mais independente do que o cão em relação aos humanos. Não é comum ver um gato seguindo uma pessoa como faz o cão, por exemplo. Alguns cientistas defendem a idéia de que os gatos se relacionam com o ser humano como se ele fosse outro gato. Nessa relação não existiria a subordinação comum ao relacionamento do cão com o homem. O gato trataria o ser humano como um igual. É interessante observar que não é possível estabelecer uma regra geral para a relação do gato com o homem, já que existem numerosos fatores que podem influenciar essa relação, tornando-a mais próxima ou mais distante.

Período crítico
O que ocorre entre a segunda e a sétima semana de vida do gato – período de sociabilização primária – influi profundamente no comportamento dele por toda a vida. É nessa fase que o gato deve ser socializado, aprendendo a conviver com o ser humano e com os animais com que terá contato a vida toda. Gatos podem desenvolver um bom convívio até com ratos!
Após o período de sociabilização primária, o gato apresentará uma grande dificuldade para interagir socialmente com qualquer outro animal a cuja convivência não tenha sido exposto.

Sociabilização com estranhos
Se quisermos que o gato seja sociável com estranhos devemos habituá-lo a diversas pessoas e não somente a seus proprietários. Estudos científicos demonstram que gatos que no período de socialização conviveram com apenas uma pessoa tendem a ser tolerantes com aquela pessoa específica, enquanto que gatos expostos nessa fase à convivência com quatro ou mais pessoas tendem a aceitar e interagir com qualquer estranho. Também influencia o comportamento dos filhotes a maneira como a mãe reage na presença de estranhos. Se ela foi bem sociabilizada, sua influência tende a ser positiva.

Tempo de interação
O comportamento do gato é influenciado bastante pelo tempo que foi manuseado durante a fase da sociabilização. Se ele recebeu apenas 15 minutos de manuseio por dia naquele período, provavelmente não procurará contato prolongado com os seres humanos. Já o contato tende a ser maior e o gato dorme mais facilmente no colo das pessoas se foi manuseado por mais de uma hora diária.
Efeito da personalidade

Cada gato é um indivíduo e pode reagir e se comportar de maneira diferente, mesmo tendo tratamento idêntico. Gatos mais tímidos precisam ser mais bem sociabilizados do que os mais extrovertidos. Grande parte da personalidade do gato é influenciada geneticamente. Portanto, o comportamento futuro dos filhotes também decorre do temperamento dos pais.

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